Guantánamo é aqui e agora

12 março 2010

Guantánamo. Provavelmente muitos nem se lembrem mais das denuncias das torturas que aconteciam por lá. Ou acontecem. Barack Obama prometeu que não haveria mais maus tratos – aliás, foi um dos carros-chefes da campanha eleitoral dele – mas acho difícil que o governo dos EUA, bem no meio de uma crise financeira, esteja realmente empenhado em coibir a tortura numa prisão de inimigos declarados das nação ianque. Mas não é disso que se trata o post.

Trata-se de uma barbárie, que, na minha opinião, supera os casos de Guantánamo em crueldade. Supera não porque as vidas e a dignidade dos aqui torturados sejam maiores, mas sim pelo simples fato do número ser assustadoramente maior.

Falo, aqui, sobre o sistema carcerário capixaba. Paulo Hartung, governador do Espírito Santo já há 7 anos, não pode nem tentar isentar-se da responsabilidade dele sobre os fatos seguintes.

Nós, capixabas, já temos ideia do quão falho é o nosso sistema carcerário há um bom tempo. Chegamos ao ponto de achar normal ver reportagens mostrando mais de 30 presos em um contêiner – isso, contêiner, aqueles usados para carga de navios e que não tem nenhuma condição para uma pessoa viver dentro. Assistíamos isso pensando só em “o jornal podia acabar logo para começar a novela das 7”. Se você não mora aqui no Espírito Santo, essa reportagem talvez ajude a esclarecer as coisas: http://jornalnacional.globo.com/Telejornais/JN/0,,MRP989030-10406,00.html

Pois bem. TV aberta é voltada muito mais para os interesses dos ricos, fortes e influentes. É clichê, mas não deixa de ser verdade. Ela não mostra tudo. Aliás, mostra pouco. E se pouco significa 30 pessoas em um contêiner embaixo de sol forte, conseguem imaginar o que se esconde atrás disso?

O que se esconde, meus amigos, é um sistema prisional falido. Cumprir pena por 6 meses significa tentar sobreviver por 6 meses nas cadeias capixabas.  E aquela ladainha de “ressocializar” o preso soa como uma piada cruel perante a essa situação. A cadeia capixaba é, há anos, um instrumento única e exclusivamente de controle pela dor. Recuperação de presos é inexistente. E vale lembrar que tudo isso também se aplica aos centros de detenção de menores infratores.

A ONG Conectas enviou à ONU um relatório discorrendo vários problemas. O ponto chave desse relatório, na minha humilde opinião, não reside na linguagem utilizada e nem nas denúncias – porque estas já foram feitas inúmeras vezes por inúmeras pessoas. Dessa vez, há imagens. Imagens horrendas, que enojam, chocam. Mas imagens que finalmente chegam aos olhos da população.

As imagens e o relatório estão aqui: http://www.estadao.com.br/especiais/2009/11/crimesnobrasil_if_es.pdf. É de bom tom avisar que são imagens fortes, mas eu gostaria muito que TODOS vissem-nas.  A nossa sociedade está acostumada a reagir apenas quando aterrorizada. E esse relatório aterroriza a qualquer um que tenha um mínimo de humanidade restante.

E, sinceramente… quem me conhece, sabe que uma das minhas últimas preocupações quanto a uma gestão é a proposta dela para o sistema penitenciário. Mas “não ter proposta atuante” é totalmente diferente de “deixá-los morrer”.

É simplesmente uma barbárie feita por pura incompetência, porque eu tenho certeza de que governo estadual dispõe de dinheiro para uma reforma básica nas cadeias – algo como colocar esgoto nelas. E eu afirmo isso porque esse mesmo governo gasta diariamente milhares de reais em propaganda em todas as emissoras locais, durante todo o dia. Ironicamente, há um tempo atrás, havia uma propaganda de um novo presídio que reprisava de hora em hora.

Por fim, agora resta-nos esperar o que o nosso ilustre governador Paulo Hartung e os seus secretários envolvidos na área penal farão a respeito, nesse seu penúltimo ano de mandato.

*Estava planejando voltar com um post sobre Homeopatia – ainda o farei, acho – mas ao ler isso tive que vir aqui compartilhar meus pensamentos.

*Baseado num post do meu amigo e professor Rogério: http://literaturaeafinidades.blogspot.com/2010/03/artigo-cruel-as-masmorras-de-hartung.html

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