Guantánamo é aqui e agora (parte 2)

13 março 2010

Ontem acabei tendo que sair e não conclui o assunto do post anterior. Vou ser breve.

Como já explanei, a situação das cadeias não é algo que receba destaque na mídia capixaba. Temos um jornal de grande circulação aqui na Grande Vitória chamado “A Tribuna”. Esse jornal reproduz diversos colunistas de todo o Brasil. Dentre eles, Elio Gaspari – que escreve para vários outros jornais, também. Aliás, foi justamente pela coluna dele que eu fiquei sabendo desses relatório com fotos e de que o nosso Governador vai ter que prestar esclarecimentos perante à ONU no dia 15/03.

Mas não fiquei sabendo pela A Tribuna. Aliás, ninguém ficou sabendo por ela. No dia que a coluna deveria ter sido publicada, ela simplesmente não foi. Não havia explicação, não havia justificativa. Ela simplesmente não estava lá. Nem o Elio Gaspari foi avisado previamente que ela não seria publicada. Vejam vocês que, no que depender dos poderosos detentores dos meios de comunicação, os capixabas não iam ter acesso a isso NUNCA.

A explicação da A Tribuna foi que houve um “problema técnico”. Isso é chamar-nos de idiota. Felizmente, os débeis senhores que comandam esses meios de comunicação – que mais parecem meios de controle social – ignoram o poder da internet. Não adianta censurar todos os jornais locais se, pela internet, conseguimos ler o que é publicado fora do estado.

Outro ponto que gostaria de destacar foi a atitude de Elio Gaspari, que, assim que soube que sua coluna não foi publicada pelo jornal, suspendeu o direito de publicação. A coisa mais próxima de uma declaração que eu encontrei do colunista foi aqui e diz:  Segundo o colunista, os motivos que levaram a não publicação do texto “parecem óbvios”.

Sim, são bem óbvios. É óbvio que o povo vai dizer sim pro que o moço da televisão disser. E se ele nem tocar no assunto, é porque não é importante de se pensar sobre. Vida que segue.

* Acho que isso ainda vai render outro post, relacionando com um documentário que eu vi outro dia.

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Guantánamo é aqui e agora

12 março 2010

Guantánamo. Provavelmente muitos nem se lembrem mais das denuncias das torturas que aconteciam por lá. Ou acontecem. Barack Obama prometeu que não haveria mais maus tratos – aliás, foi um dos carros-chefes da campanha eleitoral dele – mas acho difícil que o governo dos EUA, bem no meio de uma crise financeira, esteja realmente empenhado em coibir a tortura numa prisão de inimigos declarados das nação ianque. Mas não é disso que se trata o post.

Trata-se de uma barbárie, que, na minha opinião, supera os casos de Guantánamo em crueldade. Supera não porque as vidas e a dignidade dos aqui torturados sejam maiores, mas sim pelo simples fato do número ser assustadoramente maior.

Falo, aqui, sobre o sistema carcerário capixaba. Paulo Hartung, governador do Espírito Santo já há 7 anos, não pode nem tentar isentar-se da responsabilidade dele sobre os fatos seguintes.

Nós, capixabas, já temos ideia do quão falho é o nosso sistema carcerário há um bom tempo. Chegamos ao ponto de achar normal ver reportagens mostrando mais de 30 presos em um contêiner – isso, contêiner, aqueles usados para carga de navios e que não tem nenhuma condição para uma pessoa viver dentro. Assistíamos isso pensando só em “o jornal podia acabar logo para começar a novela das 7”. Se você não mora aqui no Espírito Santo, essa reportagem talvez ajude a esclarecer as coisas: http://jornalnacional.globo.com/Telejornais/JN/0,,MRP989030-10406,00.html

Pois bem. TV aberta é voltada muito mais para os interesses dos ricos, fortes e influentes. É clichê, mas não deixa de ser verdade. Ela não mostra tudo. Aliás, mostra pouco. E se pouco significa 30 pessoas em um contêiner embaixo de sol forte, conseguem imaginar o que se esconde atrás disso?

O que se esconde, meus amigos, é um sistema prisional falido. Cumprir pena por 6 meses significa tentar sobreviver por 6 meses nas cadeias capixabas.  E aquela ladainha de “ressocializar” o preso soa como uma piada cruel perante a essa situação. A cadeia capixaba é, há anos, um instrumento única e exclusivamente de controle pela dor. Recuperação de presos é inexistente. E vale lembrar que tudo isso também se aplica aos centros de detenção de menores infratores.

A ONG Conectas enviou à ONU um relatório discorrendo vários problemas. O ponto chave desse relatório, na minha humilde opinião, não reside na linguagem utilizada e nem nas denúncias – porque estas já foram feitas inúmeras vezes por inúmeras pessoas. Dessa vez, há imagens. Imagens horrendas, que enojam, chocam. Mas imagens que finalmente chegam aos olhos da população.

As imagens e o relatório estão aqui: http://www.estadao.com.br/especiais/2009/11/crimesnobrasil_if_es.pdf. É de bom tom avisar que são imagens fortes, mas eu gostaria muito que TODOS vissem-nas.  A nossa sociedade está acostumada a reagir apenas quando aterrorizada. E esse relatório aterroriza a qualquer um que tenha um mínimo de humanidade restante.

E, sinceramente… quem me conhece, sabe que uma das minhas últimas preocupações quanto a uma gestão é a proposta dela para o sistema penitenciário. Mas “não ter proposta atuante” é totalmente diferente de “deixá-los morrer”.

É simplesmente uma barbárie feita por pura incompetência, porque eu tenho certeza de que governo estadual dispõe de dinheiro para uma reforma básica nas cadeias – algo como colocar esgoto nelas. E eu afirmo isso porque esse mesmo governo gasta diariamente milhares de reais em propaganda em todas as emissoras locais, durante todo o dia. Ironicamente, há um tempo atrás, havia uma propaganda de um novo presídio que reprisava de hora em hora.

Por fim, agora resta-nos esperar o que o nosso ilustre governador Paulo Hartung e os seus secretários envolvidos na área penal farão a respeito, nesse seu penúltimo ano de mandato.

*Estava planejando voltar com um post sobre Homeopatia – ainda o farei, acho – mas ao ler isso tive que vir aqui compartilhar meus pensamentos.

*Baseado num post do meu amigo e professor Rogério: http://literaturaeafinidades.blogspot.com/2010/03/artigo-cruel-as-masmorras-de-hartung.html